Carta

Leiam, por favor:

“O meu nome é António Oliveira, tenho 49 anos, sou casado, a minha mulher chama-se Joana, tem 28 anos e temos dois filhos, o António que vai fazer em Dezembro 3 anos e o André que também faz em Dezembro 10 anos e que iniciou este ano o 1º Ciclo.

Tenho formação académica ao nível universitário, trabalho desde os treze anos de idade e nos últimos trinta anos desempenhei funções em cargos superiores de gestão em várias empresas da indústria alimentar em Portugal, a última das quais aqui, em Torres Vedras, para além disso, tenho também habilitações e prática na condução de veículos pesados de mercadorias em rotas internacionais.

A minha esposa tem o 12º Ano de escolaridade e também vários cursos ligados a áreas de gestão de recursos humanos e nos últimos anos trabalhou em empresas de grande distribuição (hipermercados), onde desempenhou funções de gestão de recursos humanos.

Há três anos a gerência da empresa onde eu trabalhava (Indústria Alimentar) de repente e sem razão aparente decidiu encerrar esta unidade fabril tendo eu e todos os que lá trabalhavam ficado no desemprego.

Inscrevi-me no Centro de Emprego de Torres Vedras e por iniciativa própria solicitei ser inserido em algum programa ocupacional, não só para me sentir bem comigo próprio por receber o subsidio de desemprego, mas também porque sou uma pessoa muito activa e assim ter alguma coisa de útil para fazer.

Inicialmente fui trabalhar para uma biblioteca mas este trabalho era bastante monótono embora eu tenha aproveitado para ler alguns livros interessantes, assim, pedi para ser destacado para um outro programa ocupacional mais de acordo com as minhas capacidades tendo sido então colocado na Escola Secundária Madeira Torres como Responsável Administrativo do Centro de Novas Oportunidades.

Entretanto continuei sempre, todos os dias, a fazer uma procura activa de emprego tendo enviado centenas de currículos em resposta a centenas de anúncios de jornais e da internet mas sempre com resultados nulos.

A determinada altura decidi que teria que pensar numa nova área profissional porque apesar de toda a minha experiência profissional, apesar de toda a polivalência demonstrada ao longo de vários anos em gestão comercial, vendas, gestão de logística, gestão de recursos humanos, produção etc., não consegui arranjar trabalho nestas áreas. Assim, decidi ir tirar a carta de condução categoria C+E, que me habilita a conduzir veículos pesados de Mercadorias.

Entretanto, como cheguei ao fim do período de receber subsidio de desemprego, fui “despedido” da Escola Secundária Madeira Torres.

Pontualmente consegui fazer alguns “biscates” neste trabalho de motorista de pesados mas apenas para cobrir férias de pessoas ou ausências por doença, em algumas empresas daqui da região mas ainda não consegui arranjar trabalho permanente nesta profissão como gostaria, quer em rotas nacionais ou internacionais.

Nos últimos dois meses andei a trabalhar na apanha da pêra e nas vindimas, aqui na região de Torres Vedras.

Agora estou de novo sem qualquer tipo de rendimento e para complicar mais a situação, a minha mulher ficou também desempregada e numa situação que nem tem direito a receber qualquer tipo de apoio social.

Enquanto trabalhei, antes de ficar desempregado fui fazendo economias, pois nunca se sabe o dia de amanhã mas nunca pensei que ficaria tanto tempo desempregado. As despesas correntes mensais são sempre as mesmas e não se compadecem se estamos desempregados ou não, as crianças estão sempre a crescer e necessitam de coisas quase mensalmente, as economias foram diminuindo pouco a pouco até não restar mais nada, a situação chegou a um ponto que tive que recorrer até ao Banco Alimentar Contra a Fome para alimentar a minha família mas até neste pedido de ajuda não tive muita sorte.

No dia 07 de Agosto de 2010 enviei por e-mail um pedido de ajuda urgente para o Banco Alimentar Contra a Fome das Caldas da Rainha e de Lisboa, no dia 08 de Agosto fui contactado por Lisboa informando-me que ia ser contactado por uma Dra. Aida Franco, da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, onde tive, juntamente com a minha mulher uma reunião com a tal Doutora, foram-nos solicitados vários documentos que atestassem a situação de precariedade do meu agregado familiar, documentos que foram entregues à pessoa atrás mencionada no dia 14 de Agosto. Foi-me transmitido que teria de esperar a aprovação para a ajuda alimentar e que se esta fosse deferida iria então receber mensalmente e enquanto tivesse necessidade uma ajuda alimentar em conformidade com o meu agregado familiar.

Estive dois meses à espera para receber a primeira ajuda alimentar (recebi uma carta da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras com a data e hora para receber a primeira ajuda mensal, 12/10/2010 das 14:30 às 17:00 horas), e quando me entregaram a tão esperada ajuda de alimentos eu não queria acreditar.

Foi-me entregue um saco com o nº 93 que continha os seguintes produtos:

1 garrafa de guaraná antárctica de 1,5 Lt.

1 embalagem de creme de avelãs 440 grs.

1 torta de frutos silvestres de 300 grs.

1 pacote de bolachas c/recheio de chocolate de 180 grs.

2 latas de salsichas de 350 grs.

1 lata de salsichas de 250 grs.

2 latas de atum de 120 grs.

1 pacote de esparguete de 500 grs.

Como podem constatar, dificilmente alguém se conseguiria alimentar durante um mês com estes produtos e muito menos duas crianças.

Vejam, que os meus filhos nem sequer contaram para nada na “ajuda” prestada, pois não foi contemplado nenhum produto básico essencial para a alimentação deles como leite, yogurtes, papas, cereais, etc.

Revoltado com a situação enviei por e-mail uma exposição de toda esta situação para o Banco Alimentar de Lisboa e das Caldas da Rainha, pois acredito que estes quando me encaminharam para a Santa Casa de Torres Vedras, também acreditaram na articulação com este organismo para me darem apoio mas até agora não me deram resposta.

Continuo assim com o problema de não ter nem sequer meios para comprar os produtos mais básicos para alimentar os meus filhos, para já não falar que já estou a pagar a rende de casa em parcelas esperando que a compreensão do senhorio não se esgote e que a qualquer momento irei ficar sem luz e sem gás por falta de pagamento.

O meu filho mais velho que entrou este ano para o primeiro ciclo já não tem roupa e calçado de inverno que lhe sirva e também não sei como colmatar estas faltas.

Eu apenas quero poder trabalhar, ou será que eu como cidadão que sempre trabalhou, que sempre cumpriu com as suas obrigações não tenho direito a sustentar a minha família?

Que país é este em que não se tem nenhum direito, que sociedade é esta em que não se tem direito a educar os filhos se não tivermos meios, que país é este em que as pessoas não têm direito a ganhar a seu sustento.

Não sei até quando irei aguentar esta situação de desespero, já esgotei todas as alternativas de onde pedir apoio, não sei mais o que fazer.

Começo a ter receio, medo até, dos pensamentos que me passam pela cabeça, só ainda não fiz uma asneira porque penso neles (meus filhos) e na minha mulher mas até quando vou suportar esta situação de falta das coisas mais básicas para poder criar os meus filhos, para poder sustentar a minha casa, a minha família.

E o meu filho mais velho? O que pensará de tudo isto? O que pensará deste pai que nem comida consegue pôr na mesa? Já para não falar do resto.

A quem ler estas minhas palavras, faço um apelo de ajuda do que puderem para a minha família.

Um trabalho é o principal, pois o que quero é trabalhar mas também preciso de ajuda no que puderem ajudar-me.

Um Pai desesperado

António Oliveira

O meu contacto: 918779970″

Acho que comentar é desnecessário. Mas, a ajuda que o senhor Antonio recebeu, parece mais uma piada de muito mau gosto.

4 pensamentos sobre “Carta

  1. existem pessoas crueis, não é? mas, são necessárias para nossa reflexão e como modelo do que não devemos… pelo menos, eu penso assim!

  2. Trabalha desde os 13 anos?
    As coisas acontecem, mas não juntou nada. Que trabalhos procura? Construção Civil, Modelo, Jumbo?

  3. Pelo que vi no jornal regional o carro que tinha a mala aberta com as ajudas (onda de solidariedade) se for seu pareceu-me bastante bom. Porque não o vende e quando necessário usa os transportes públicos. Não basta pedir tem de ser o primeiro a tomar iniciativas. Aos 49 anos devia ter feito, ao longo da vida, um mealheiro.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s